Cabrita Reis pede que nos deixemos encantar pelo que os artistas têm a dizer

O filme do "nascimento" da arte contemporânea portuguesa está, desde a noite passada, em exibição na Galeria Municipal do Porto, onde Pedro Cabrita Reis inaugurou a exposição com o seu espólio de 33 artistas, que passou a integrar a Coleção de Arte da Fundação EDP.


Com curadoria de Ana Anacleto e Pedro Gadanho, "Germinal - O núcleo Cabrita Reis na Coleção de Arte Fundação EDP" é a oportunidade inédita de (re)descobrir os primeiros trabalhos dos artistas que fazem hoje a arte contemporânea portuguesa, aquém e além fronteiras. Foram esses artistas e esse trabalhos que Pedro Cabrita Reis teve a perspicácia de detetar nos últimos 30 anos e, a partir daí, constituir uma vasta coleção de quase 400 obras.

Mas o visionário artista plástico decidiu pôr em prática a máxima de que "a arte não é para guardar; é para ser ver", pelo que a coleção foi adquirida pela Fundação EDP e será exposta em junho no MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia. Antes, porém, esse núcleo faz a estreia no Porto e é aqui, agora, que "celebramos o encontro de uma energia pessoal com a instituição EDP". Ou, melhor dito, "celebra-se a energia dos artistas que fazem parte da coleção", como proclamou Cabrita Reis na inauguração de Germinal.

O artista e simultaneamente agente cultural e colecionador aproveitou para defender "a importância da participação dos artistas na vida (até na vida política) do país e do seu olhar crítico quanto ao Portugal que estamos a construir". Ladeado pelo presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, pelo administrador executivo e diretor-geral da Fundação EDP, Miguel Coutinho, pelo adjunto de Rui Moreira para a Cultura, Guilherme Blanc, e pelos curadores Ana Anacleto e Pedro Gadanho, Cabrita Reis pediu, por isso, "o vosso encanto perante a atividade dos artistas". Até porque - vincou - "nós vivemos do que os artistas têm para nos dizer".



A aventura de resgatar obras da memória

No caso de Germinal, a mensagem vem dos 33 artistas representados, mas também da sua interpretação por Cabrita Reis e ainda da leitura por Ana Anacleto e Pedro Gadanho, como explicou Guilherme Blanc. O adjunto de Rui Moreira salientou que se trata de "artistas muito relevantes no contexto da arte contemporânea portuguesa" e que a exposição constitui também "um recorte muito interessante do ponto de vista histórico".

Com efeito, Germinal - a segunda exposição realizada na Galeria Municipal do Porto em coorganização com a Fundação EDP e o MAAT - integra trabalhos de início de carreira e alguns que até os seus autores os haviam esquecido, como é o caso de Joana Vasconcelos, por exemplo.
Outros tinham-se há muito distanciado artística ou fisicamente dessas obras, mas os curadores restabeleceram os laços. Aconteceu com Sílvia Hestnes Ferreira, que se radicou em França, mas virá ao Porto para uma das sessões paralelas a esta exposição que o serviço educativo da Galeria Municipal preparou.

"Foi uma aventura mergulhar nesta coleção", exclama Ana Anacleto, que partilha com Pedro Gadanho a curiosidade e a satisfação de "dar nova vida a estas peças" em que os artistas, ainda em início de carreira, estavam a tentar descobrir-se e ao caminho que iriam trilhar, ou não.

Criar a exposição Germinal foi, por isso, também uma redescoberta para os dois curadores, que aqui apresentam cerca de 50 das quase 400 obras que compõem o núcleo Cabrita Reis na Coleção da Fundação EDP.

A exposição desenvolve-se em quatro núcleos que ajudam a orientar o visitante, funcionando sobretudo como pretextos para momentos de reflexão e diálogo ao longo do percurso no espaço expositivo: "O sujeito em fratura" mostra peças que apontam para a ideia do pós-modernismo, para a definição de identidade; no "Ao encontro do Outro" vemos obras que revelam questões de identidade de género e que têm um caráter antropológico; "O predomínio da tecnologia" mostra-nos como é que os artistas começaram a descobrir a tecnologia e a usá-la de forma mais democratizada, acima de tudo através do vídeo, do som e da imagem em movimento; e, por fim, "A herança das imagens" remete-nos para a tradição histórica das imagens e da representação.

De entrada livre, Germinal oferece, assim, ao público a mesma oportunidade de dar esse mergulho na história da arte contemporânea portuguesa. Hoje mesmo, pelas 16 horas, realiza-se uma visita guiada, após o que será feito o lançamento do livro/catálogo de "Quatro Elementos", exposição que ali teve lugar em finais do ano passado.

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Horário
terça a sábado - 10h00/18h00
domingo - 14h00/18h00
Encerra às segundas-feiras e feriados
Visitas guiadas: sábados, 16h00

Galeria Municipal do Porto (Jardins do Palácio de Cristal)
Acesso livre