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Plano da Cidade do Porto 1824

Plano da Cidade do Porto, 1824

 

José Francisco de Paiva

 

José Francisco de Paiva (n. 1744 – f. 1824) natural do Porto, foi um importante ensamblador e arquiteto português, figura central no panorama artístico e urbanístico da cidade do Porto na transição do século XVIII para o século XIX. A sua formação decorreu fora do modelo académico, inserindo-se na tradição oficinal, comum no Porto setecentista, aspeto amplamente analisado pela historiadora Maria Helena Mendes Pinto na sua monografia José Francisco de Paiva, Ensamblador e Arquitecto do Porto (1973), obra de referência para o estudo da sua vida e atividade profissional. Segundo esta autora, José Francisco de Paiva iniciou a sua carreira como ensamblador, especializando-se em estruturas arquitetónicas de madeira, retábulos e outros elementos construtivos complexos, incluindo a criação de mobiliário de luxo e talha. Destacam-se, neste contexto, as cadeiras da Sala do Despacho da Santa Casa da Misericórdia do Porto, frequentemente referidas na bibliografia como exemplares significativos da introdução do gosto neoclássico na cidade. Deixou uma coleção de 130 folhas de desenhos datadas de cerca de 1780, atualmente no Museu de Arte Antiga de Lisboa. Estes incluem desenhos de mobiliário que demonstram fortes influências inglesas, desde o Rococó ao Neoclássico.

 

Progressivamente, alargou a sua atuação à arquitetura civil, afirmando-se como um técnico altamente qualificado no desenho, medição e avaliação construtiva, num período em que as fronteiras entre ofício e arquitetura se encontravam em redefinição. No âmbito da construção do Quartel de Santo Ovídeo, iniciado a partir de risco original de Reinaldo Oudinot, José Francisco de Paiva assumiu, após a morte de Teodoro de Sousa Maldonado, em outubro de 1799, a direção dos trabalhos como arquiteto principal. Maria Helena Mendes Pinto sublinha a importância dos estudos e desenhos produzidos por Paiva para a cimalha arquitravada do segundo andar do edifício, interpretando-os como prova do seu domínio técnico e da sua adesão consciente a uma linguagem arquitetónica de matriz neoclássica. O seu nome surge ainda associado à Real Casa Pia de Correcção e Educação e Aquartelamento das Partidas Avulsas, nomeadamente através do desenho do moldurado e da ornamentação floral aplicada aos festões, elementos que revelam continuidade formal e coerência decorativa na sua obra. José Francisco de Paiva exerceu igualmente funções ligadas à Câmara do Porto, atuando como medidor, avaliador e desenhador.

 

Estas funções proporcionaram-lhe um conhecimento profundo da cidade real, construída e vivida, fator determinante para a elaboração do Plano da Cidade do Porto (c. 1818 – 1824). Destaca-se o seu domínio do levantamento topográfico e da representação rigorosa do espaço urbano em resultado de décadas de observação direta, medições no terreno e contacto permanente com os problemas de circulação, alinhamentos e salubridade urbana. Nos últimos anos de vida, José Francisco de Paiva dedicou-se quase exclusivamente à conclusão e aperfeiçoamento do plano urbano da cidade, trabalho que permaneceu inacabado à data da sua morte, em 1824. Considerado pela historiografia como a primeira planta civil rigorosa da cidade do Porto, a apresentação do Plano introduziu novos alinhamentos de ruas e praças, estabelecendo bases fundamentais para a reorganização urbana e uma leitura moderna do espaço citadino. No rótulo da planta parcialmente danificado lê-se: “(…) para este servir aos novos alinhamentos projetados, praças precisas na extensão do mesmo plano; para acautelar a construção dos edifícios para o futuro; e igualmente servir de governo à iluminação da cidade (...). A planta contém ainda legenda com a localização dos edifícios públicos, conventos, colégios e igrejas.

 

O Plano da Cidade do Porto de José Francisco de Paiva não deve ser entendido como um exercício de planeamento urbano, em sentido moderno, constitui, porém, um importante instrumento de regularização urbana, definidor de diretrizes para os traçados viários e a estruturação de praças, para a implantação dos edifícios e a organização dos sistemas de iluminação. Nesse sentido, o plano constituiu um marco inovador no processo de modernização urbana da cidade do Porto.

 

 

> Plano da Cidade do Porto 1824 (planta original AMP)

> Plano da Cidade do Porto 1824 (planta interpretada)

> JF de Paiva – Ensamblador e Arquitecto (1744-1824) Monografia – Capa

> Alinhamentos da rua do Reimão e continuação da rua de São Víctor (1835)

> Pequena praça junto do Carregal (JF de Paiva 1824)

> Plano do passeio público no sítio das Fontainhas (JF de Paiva 1815)

> Abertura de travessa entre as ruas de Cedofeita e de Santo Ovídio (1810)

> Quartel de Santo Ovídeo no Campo da Regeneração (1799)

> Alinhamento do caminho entre o campo de São Lázaro e as Fontainhas (1798)

> Real Casa Pia de Correção e Educação e Aquartelamento de Partidas Avulsas (1792)

> Praça Nova (sul) desde Santo Elói à Porta de Carros (1790)