COORDENAÇÃO
Arquiteto Urbanista Giovanni Muzio - Gabinete de Urbanização
Giovanni Muzio (Milão, 1893 – 1982) fundador do movimento arquitetónico-urbanístico de renovação na Lombardia, projetou mais de 50 edifícios para Milão. O bloco residencial Ca’ Brütta no gaveto das vias Moscova e Turati, é a obra icónica de Muzio aclamada pelo movimento Novencento milanês, e constituiu um manifesto de uma nova visão unificada da relação entre edifício e cidade.
Em fevereiro de 1940, após o extinguir o contrato com Marcello Piacentini, o Município do Porto endereçou um convite a Giovanni Muzio para que este, na qualidade de consultor urbanista, prosseguisse o trabalho desenvolvido por Piacentini e pelo Gabinete do Plano de Urbanização e Expansão da cidade do Porto. Foi-lhe solicitado que definisse até ao final de 1940 as linhas gerais do Plano e acompanhasse os trabalhos em coordenação com os técnicos municipais entre 1941 e 1943 até à sua conclusão, o convite é aceite em fevereiro de 1940. Na primeira visita ao Porto a 7 de abril Muzio é recebido na Câmara Municipal e toma contacto com a equipa técnica do Plano, que o conduz pela cidade para obter uma visão geral da realidade local. Inteirou-se dos estudos e inquéritos já efetuados pela equipa de Piacentini, assim como os relatórios produzidos pelo Gabinete de Urbanização, objeto de diagnóstico sobre as principais problemáticas urbanas relacionadas com o trânsito, o zonamento e o problema social da habitação.
Baseado neste conhecimento Muzio, iniciou diversos estudos em Milão e regressa duas vezes ao Porto em Janeiro e Outubro de 1941 a fim de verificar no terreno a exequibilidade das suas propostas. Para a estruturação viária propõe “comunicações interurbanas, viárias e ferroviárias” assim como uma “rede de comunicações dentro da própria cidade”, e desenha uma entrada a sul pela futura ponte da Arrábida dirigida ao porto de Leixões e ao campo de aviação em Pedras Rubras. Na cidade poente idealiza uma malha residencial burguesa estruturada pela avenida Marechal Gomes da Costa, o tramo final da avenida da Boavista e o mar. Retoma ainda a ideia de uma ligação desde a marginal do Ouro até Leixões, através da almejada avenida Nun’Álvares. Na zona do Campo Alegre estrutura nova área residencial tendo como espinha dorsal a via da futura ponte da Arrábida. Conclui-se mais tarde que por falta de uma informação topográfica mais rigorosa, vários destes estudos revelaram-se pouco exequíveis.
No centro da cidade propõe a ligação da ponte Luíz I aos Aliados, através de praças monumentais ladeadas por edifícios de grande escala, e para ligar a praça da Liberdade ao terreiro da Sé proponha uma rua-viaduto sobre as ruas de Mouzinho da Silveira e Flores, sendo para o efeito necessário demolir e reformular quarteirões medievais inteiros entre os quais o do palácio das Cardosas. A este processo não foi indiferente as ações da Direção Geral dos Monumentos Nacionais a propósito das Comemorações Centenárias de 1940, com as obras entre 1936 e 1938 no edifício da Sé do Porto, as quais envolveram devastadora demolição de quarteirões medievais inteiros. Os estudos de Giovanni Muzio refletem a sua faceta de arquiteto-urbanista de época, a “arte cívica” de estilo ambíguo, onde o desenho urbano se posicionava entre o academismo e o racionalismo italiano. De perspetiva e escala monumental e com elevada pormenorização do edificado e rigor da implantação, e dos alinhamentos e das cérceas.
A elaboração de planos de urbanização, parte da estratégia de modernização das principais cidades do país, era uma das grandes apostas do Ministro das Obras Públicas Eng.º Duarte Pacheco o qual atribuía ao Porto um papel importante nesse desígnio. Interessou-se particularmente pela evolução dos estudos do Plano para a cidade, fazendo-o sempre de modo interventivo e dinâmico como aconteceu na sua visita ao Porto a 9 de Março de 1941, onde o Ministro pode percorrer atentamente a exposição dos trabalhos e ouvir a explanação das ideias de Giovanni Muzio. Duarte Pacheco reconheceu a enorme complexidade do trabalho e a valia das propostas urbanísticas na componente da circulação e transportes, e manifestou preocupação pela falta de estimativas dos encargos com as obras novas e necessárias expropriações. Concluiu para a necessidade de encarar o Plano como um todo orgânico e não só um conjunto de problemas. Admitiu que deveria partir-se de um inquérito exaustivo sobre a situação no terreno, com plantas atualizadas em escalas convenientes e com planimetria que permitisse interpretar o relevo com rigor, a fim de se obter um levantamento aéreo em mosaico fotográfico plano e oblíquo que permitisse uma visão estereoscópica da cidade. Por seu lado Muzio manifestou todo o seu empenho no acompanhamento dos trabalhos e na definição das diretrizes necessárias para que o Gabinete de Urbanização concluísse e promovesse a aprovação do Plano.
Por fim a 29 de abril de 1943 em carta enviada ao Município do Porto, Muzio afirma ter concluído o Relatório do Plano com o contributo do Gabinete de Urbanização, manifestando disponibilidade para uma audiência com o Ministro a fim de expor a versão final do Plano Geral de Urbanização. A progressão dos trabalhos assentara no cunho pessoal de Giovanni Muzio e na troca de informação entre o Porto e Milão, que culminaria na apresentação da proposta final do Plano para a aprovação do Ministro das Obras Públicas. Malogradamente este encontro de Muzio com o Ministro não chegou a acontecer, devido ao trágico acidente de viação que vitimou o Eng.º Duarte Pacheco no dia 15 de novembro de 1943 quando este regressava a Lisboa, depois de uma visita oficial a Vila Viçosa. O Ministro tinha impulsionado e acompanhado de perto a evolução dos trabalhos do Plano Geral de Urbanização da Cidade mas com o seu prematuro falecimento, o Plano praticamente concluído é suspenso definitivamente, e dos estudos e das propostas do arquiteto-urbanista Giovanni Muzio restaram apenas belos desenhos, esboços e esquissos.
>Primeiros estudos do GPU entregues no Porto ao arquiteto Giovanni Muzio em 07 maio 1940
>Esquiços de G.Muzio para a ligação entre a Ponte Luís I e a Praça da Liberdade (1940)
>Estudos viários de G.Muzio do Campo Alegre à Boavista, Esquema A e B (1942)
>Estudos de urbanização do Campo Alegre, Variante A e B (G.Muzio,12 setembro1942)
>Estudos para a planta do Plano Geral de Urbanização, G.Muzio com GPU (1942)
>Estudos para a planta do Plano Regulador do Porto, G.Muzio com GPU (1942)