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Plano Almadino 1784

João Manuel de Almada e Melo

 

João de Almada e Melo nasceu em Troviscoso, Monção a 15 de agosto de 1703 e faleceu no Porto em 30 de outubro de 1786. Foi uma das figuras centrais da administração pombalina no Norte de Portugal, nomeado Governador da Relação do Porto por D. José I, o qual fundou em 1763 a Junta de Obras Públicas, o organismo responsável por coordenar e financiar as grandes intervenções urbanísticas que transformariam a cidade. O financiamento provinha de um imposto lançado sobre o comércio do Vinho do Porto, reforçando a ligação direta entre a atividade económica e o desenvolvimento urbano.

 

O designado “Plano Almadino” coordenado por João de Almada e Melo em 1784, representa um dos marcos mais decisivos da história urbana do Porto, sendo amplamente considerado o primeiro plano geral da cidade do Porto. A sua execução constituiu uma revolução profunda na forma de pensar e organizar o espaço urbano, num período em que o Porto vivia um rápido crescimento económico e demográfico, impulsionado sobretudo pelo comércio vinícola e pela criação da Companhia das Vinhas do Alto Douro.

 

Até meados do século XVIII, o Porto permanecia confinado à sua muralha gótica e a algumas zonas rurais e piscatórias próximas do Douro. Porém, o crescimento populacional, aliado a um período de prosperidade económica, exigiu um novo modelo de cidade. A Junta de Obras Públicas introduziu princípios inovadores, valorizando a luz, a higiene, a salubridade e a organização formal dos conjuntos arquitetónicos. Deixava de ser relevante o edifício isolado: o que importava era a coerência visual e funcional do todo urbano. O traçado das ruas era acompanhado pelo desenho dos alçados, criando uma harmonia que ainda hoje se reconhece em várias zonas do Porto.

 

O Plano assumiu uma dupla missão: renovar o casco medieval e disciplinar a expansão extramuros, que se vinha fazendo de modo orgânico e desordenado. Para isso, foram redefinidas e abertas as principais vias de circulação, dando origem a artérias amplas e direitas que facilitaram o movimento de pessoas e bens. Entre esses eixos destacam-se as ruas de Cedofeita, de Santa Catarina, Direita (atual Santo Ildefonso), do Reimão (Avenida Rodrigues de Freitas), dos Quartéis (Rua de D. Manuel II) e a Calçada da Natividade (Rua dos Clérigos). A Rua Nova das Hortas e o Passeio das Virtudes surgem também como resultados diretos dessa intervenção. O novo eixo estrutural criado por Almada é um dos elementos mais emblemáticos do plano. Iniciando-se na Praça da Ribeira, prosseguia pela Rua de São João, Largo de São Domingos, Rua das Flores, Rua Nova das Hortas e Rua do Almada, até ao Campo de Santo Ovídio (hoje Praça da República). Este percurso consolidou-se como espinha dorsal da modernização da cidade, estabelecendo ligações fluidas entre a zona ribeirinha e os novos espaços de expansão. Além do redesenho das vias, o plano promoveu a criação e renovação de praças e de espaços públicos, reforçando o caráter cívico da cidade. A Praça de São Roque, posteriormente desaparecida com a abertura da Rua de Mouzinho da Silveira, e a requalificação da Praça da Ribeira são exemplos significativos. Paralelamente, surgiram alamedas voltadas ao rio, como as das Virtudes, Massarelos e Fontainhas, que introduziram novas visões paisagísticas e espaços de lazer. A segunda metade do século XVIII foi também marcada pela construção de importantes edifícios de arquitetura neoclássica de influência inglesa, tendência que se prolongaria pelo século XIX. Entre estas obras destacam-se a Casa da Feitoria Inglesa, o Edifício da Cadeia e Tribunal da Relação, o Hospital de Santo António, a Real Casa Pia (mais tarde Governo Civil), bem como a abertura dos arcos no Muro da Ribeira. A Real Academia da Marinha e do Comércio, atual Reitoria da Universidade do Porto, a Igreja dos Terceiros de São Francisco, a Igreja da Lapa, a Igreja da Trindade, a Alfândega Nova e o Convento de Santo António da Cidade (hoje Biblioteca Municipal) completam este vasto conjunto de edificações estruturantes.

 

O processo de transformação do Porto implicou também a demolição progressiva da Muralha Fernandina, já desadequada às necessidades da cidade em crescimento. Quando Francisco de Almada e Mendonça, filho de João de Almada e seu sucessor na Junta, faleceu em 1804, o Porto era já uma cidade profundamente distinta daquela que existia quatro décadas antes — mais fluida, mais iluminada, mais alinhada com os ideais urbanos iluministas. Mesmo após a extinção da Junta de Obras Públicas, o espírito de planeamento urbano inaugurado por Almada deixou marca. O Decreto‑Lei de 31 de dezembro de 1864, que instituiu a figura dos Planos de Melhoramentos, retomou essa visão estruturada, permitindo projetos de grande escala, como o apresentado por Corrêa de Barros em 1881, documento que consolidou muitas das linhas de pensamento iniciadas no século XVIII.

 

O Plano de João de Almada e Melo permanece, assim, como um dos mais ambiciosos e transformadores instrumentos urbanísticos da história do Porto — um exemplo pioneiro em Portugal e na Europa, responsável por moldar a identidade urbana que ainda hoje caracteriza a cidade.

 

>Planta do Bairro dos Laranjais (1784)

>Planta da Praça de Ribeira (1776)

>Alçados das Arcadas Poente da Praça da Ribeira (1776)

>Planta da Rua Nova dos Lavadouros (1776)

>Planta geral para o meio da Rua Nova de Santo António (1795)

>Planta baixa entre a Praça de Santo Ildefonso e a Rua Nova de Santo António (1794)

>Alinhamento na Rua de Cedofeita (1782)

>Planta geral da Rua Nova do Padrão (1791)

>Planta geral para o lado sul da Praça de Santo Ovídio (1795)

>Os Almadas, Catálogo de Exposição Bibliográfica (1987)